Ocupação italiana do Reino da Albânia
"A Albânia é a Boemia dos Balcãs,
quem tem nas mãos a Albânia tem nas mãos a região balcânica. A
Albânia é uma constante geográfica da Itália, que assegura o
controle do Adriático [...] no Adriático não entra mais ninguém
[...] alargamos as barras do cárcere do
Mediterrâneo."
(Benito Mussolini, reunião de 13
de abril de 1939 do Grande Conselho do Fascismo)
A Albânia existiu como nação independente de jure, oficialmente conhecida como
Reino Albanês de 1939 à 1943, sob ocupação da Itália
fascista.
História
A influência italiana na
Albânia
A Albânia já estava ocupada por um corpo de expedição italiano em
junho de 1917, durante a Grande Guerra, e estava submetida ao
protetorado italiano. Com o Tratado de Tirana de 1920, entretanto,
Giolitti havia renunciado ao protetorado de seu estado balcânico
reconhecendo sua plena independência em troca da ilhota de Saseno.
As coisas mudaram com o advento de Mussolini. A política externa
fascista iniciou com a própria obra de expansão nos Balcãs com a
operação diplomático-militar de penetração na Albânia; a
proclamação, em 1925, de Ahmed Zog como Chefe de Estado pôs as
bases para a prossecução e reforço da influência italia na região e
já no mesmo ano de 1925 acordos foram estipulados entre os dois
países graças ao trabalho dipolomático de Alessandro Lessona,
primeiramente, e do Secretário Geral do Ministério de Relações
Internacionais, posteriormene. Com a ratificação destes acordos,
Zog assegurou todas os requisitos italianos:
"Em um tratado militar secreto
[...] A Albânia põe à disposição da Itália o seu território na
eventualidade de uma guerra com a Iugoslávia; [...] concessões de
zonas petrolíferas, [...] concessões agrícolas em zonas a definir,
[...] constituição do Banco de emissões da Albânia com capitais
italianos."
Em 26 de junho de 1926, ainda, é assinado o acordo com o qual a
Empresa Italiana de Petróleo da Albânia (Azienda Italiana Petroli
Albania - AIPA) assume, em concessão exclusiva, a gestão dos
recursos petrolíferos da região do Devoli. Em 30 de agosto de 1933
o ensino da língua italiana foi feito obrigátorio em todas as
escolas do reino. Em março de 1939 Benito Mussolini propôs ao Chefe
de Estado Zog um novo tratado que cederia totalmente a soberania
nacional albanesa retirando o governo de Zog do poder de decisão
nos campos estratégicos como a economia e a política externa. O
tratado foi articulado em 8 pontos: a aliança militar entre os dois
países (art.1); a integridade territorial da Albânia reconhecida
pela Itália (art.2); a possibilidade de a Itália intervir com meios
próprios em caso de perigo à ordem pública interna ou por uma
agressão externa ao território albanês (art.3); uma série de
acordos sobre a exploração dos recursos e da infraestrutura
albanesa pela parte italiana (arttt. 4-5-6-7); e finalmente o
artigo 8, base para o expansionismo demográfico italiano na
Albânia, no qual se lê:
"Os cidadãos albaneses residentes na Itália e os cidadãos italianos
residentes na Albânia lograrão dos mesmos direitos políticos e
civis que os cidadãos de seus estados em seu próprio
território"
O artigo 9 do tratado representou o ponto de ruptura entre as duas
partes, uma vez que Zog, apesar de suas estreitas relações com a
Itália, não poderia aceitar estas condições.
O golpe italiano
A invasão da Albânia de 1939, ocorrida em 7 de abril, fez parte das
operações militares do Reino da Itália para a expansão territorial
e econômica às vésperas da Segunda Guerra Mundial, iniciada em 1º
de setembro de 1939. As tropas italianas invadiram o território
albanês desembarcando em Santi Quaranta, Valona e Durazzo. A
resisência armada albanesa, organizada por exemplo em Durazzo por
Mujo Ulqinaku, revelou-se insuficiente contra as forças armadas
italianas. O rei e o governo fugiram para a Grécia e foram
obrigados ao exílio, e a Albânia deixo de fato de existir como
Estado independente. As perdas italianas nos 3 dias (7,8 e 9 de
abril) necessários à ocupação do País, alcançaram um total de 93
homens (12 mortos e 81 feridos) dos quais oficiais 1 morto e 9
feridos, sub-oficiais 1 morto e 8 feridos, e soldados 10 mortos e
64 feridos; 60% das baixas foram da Marinha. O total de italianos
que desembarcaram na Albânia e ocuparam o país foi de cerca de
22.000. Os invasores italianos instauraram também um governo
fantoche com uma nova Constituição, que transformou a Albânia em
colônia italiana. O trono albanês foi assumido pelo Rei Vittorio
Emanuele III, que reinou até o o armistício de 8 de setembro de
1943 (quando a Itália se une aos Aliados). Deve-se adicionar que o
ataque à Albânia ocorreu uma semana depois da conclusão da Guerra
da Espanha (1º de abril de 1939). Segundo alguns, este ataque
deveria ter ocorrido logo após a guerra da Etiópia (Abissínia) de
1936, mas foi adiado por causa da guerra espanhola, onde Mussolini
se envolveu militarmente ao lado de Francisco Franco
(1936-1939).
As relações exteriores albanesas, como também os recursos naturais, passaram a ter controle direto da Itália. Os fascistas permitiram aos cidadãos italianos assentarem-se na Albânia, com o objeivo de transformá-la em território italiano em todos os sentidos. De fato, no curso de toda a ocupação vieram cerca de 11.000 colonos italianos (a maioria proveniente de Veneto e do sul da Itália) que se concentraram nas zonas de Durazzo, Valona, Scutari, Porto Palermo, Elbasani e Santi Quaranta. A estes colonos somam-se 22.000 trabalhadores italianos enviados temporariamente à Albânia em abril de 1940 para construir estradas, ferrovias e infraestrutras. A Albânia serviu para Mussolini também como ponto de partida para a conquista da Grécia, uma vez que iniciara a transformação do Mediterrâneo no "Mare Nostrum" do império romano. De fato, com a invasão da Albânia, o Duce estava decidido a seguir o caminho dos romanos, para a conquista dos Balcãs (a antiga Illiria).
Segunda Guerra Mundial
Em 1941, durante a Segunda Guerra
Mundial, as potências do Eixo ocuparam por inteiro o Reino da
Iugoslávia (Operação 25), que foi "eliminado" do mapa: com base na
Nova Ordem européia buscada por Hitler, foi criado o Estado
Independente da Croácia (que compreendia a maior parte da Croácia
atual e toda a Bósnia-Herzegovina moderna), sob comando do chefe da
Ustasha, Ante Pavelić; os italianos anexaram o litoral da
Dalmácia com Sebenico, Spalato e Cattaro (Governo da Dalmácia),
assim como a Carniola (província italiana de Lubiana); a Stiria
passou a fazer parte do Terceiro Reich, a região de Baka foi
passada à Hungria; Montenegro, terra natal da rainha Elena, foi
destinado à independência sob protetorado italiano; finalmente, a
Albânia adquiriu boa parte de Cossovo, a parte ocidental da
Macedônia iugoslava (Dibrano) e, às custas de Montenegro, extendeu
suas fronteiras ao norte, na região da Metohija. De fato, Alemanha
e Itália, incluídas entre as grandes potências da época (1913-1915)
e participantes da famosa Conferências dos Embaixadores em Londers,
1913, onde foram estabelecidas as fronteiras da Albânia deixando de
fora mais da metade dos territórios albaneses com uma população
prevalentemente albanesa (90%), assumiram o direito de incluir na
Albânia de 1941 aqueles territórios que lhe foram tirado sem
1913-1915 e posteriormente de maneira definitiva na Conferência de
Versalhes de 1919. Então a anexação de Cossovo à Albânia resultara
como uma reparação pelas injustiças acima mencionadas. Deve-se
mencionar, para valorizar esta anexação de Cossovo, que a educação
em língua albanesa era proibida pelo governo iugoslavo, tendo sido
vetada durante toda a ocupação otomana, ainda que a população
albanesa utilizasse sua língua nacional. De fato, o Ministro da
Educação do considerado governo "fantoche" de Mustafá Kruja, abriu
em Cossovo 200 escolas de língua albanesa enviando mais de 200
professores. Deste momento em diante, a educação em língua albanesa
em Cossovo passou a ser oficial e continuou durante a Federação
Iugoslava até nossos dias, com a independência de
Cossovo.
Nas novas províncias do Cossovo e
de Dibrano viviam minorias sérvias, montenegrinas e búlgaras, que
foram objeto de uma política de albanização forçada, à qual as
autoridades italianas não se opuseram. Nestes territórios as
práticas de expatriação e limpeza étnica eram de praxe: nomes e
topônimos macedônios, gregos, sérvios e montenegrinos foram
albanizados; foram "encorajados" as transferências de populações
búlgaras e gregas das regiões de ocupação albanesa para aquelas de
ocupação búlgara ou para a Grécia. Logo depois da divisão da
Iugoslávia, tanto Bulgária quanto Albânia disputaram a Macedônia.
Com a primeira tendo a seu lado os alemães, preocupados em não
suscitar atritos com os búlgaros por causa da ocupação alemã em
Salônica, enquanto Roma apoiava as reivindicações albanesas. Os
alemães concederam à todas as tropas búlgaras o avanço até Ocrida,
onde as tropas ítalo-albanesas haviam entrado primeiro. Neste
ponto, o embaixador italiano em Sófia, Massimo Magistrati,
encontrou o embaixador alemão, afirmando que Ocrida e Struga deviam
passar para a Albânia. Wolfram von Richtofen lhe respondeu
claramente que Berlim preferia resolver a questão a favor de Sófia
(Ocrida era pátria do venerado São Clemente). A disputa foi assim
resolvida: Tetovo, Gostivar, Kicevo e Struga, assim como a porção
sul do lago de Ocrida e a zona do lago de Prespa (ao todo cerca de
230.000 habitantes) costituíram a província albanesa de Dibrano,
enquanto a cidade de Ocrida e o resto da Macedônia iugoslava passou
para os búlgaros.
Os albaneses não se renderam e reivindicavam também a Ciamuria, região grega habitada por uma importante comunidade albanesa. A Itália apoiou as reivindicações albanesas e iniciou sua campanha de provocação à Grécia, estopim que culminaria como justificativa para a ação militar italiana em terras helênicas. Depois da total ocupação da Grécia pelas potências do Eixo (Operação Marita), a Itália começou a preparar seu caminho para uma iminente anexação da Grande Albânia do Épiro: alavancando-se no fenômeno da inssureição albanesa, os italianos instigaram uma violenta perseguição contra os cidadãos gregos e contra a comunidade judia residente no Épiro. As milícias albanesas guiadas por oficiais italianos destruíram, saquearam incendiaram vilas inteiras realizando verdadeiros massacres de civis: « no distrito de Paramythia, 19 vilas foram saqueadas e posteriormente incendiadas, 201 civis foram morto; entre aqueles de Igoumenitza, as vítimas da repressão foram outras 150.»
Pós-guerra
As estatísticas dos anos em que a Albânia foi ocupada pela Itália falam em 28.000 mortos, 12.600 feridos, 43.000 deportados e internados em campos de concentração, 61.000 habitações incendiadas, 850 vilas destruídas. Os militares italianos incluídos na lista da Comissão das Nações Unidas para crimes de guerra e naquelas do governo da Albânia, em 10 de fevereiro de 1948, somavam 145, dos quais 3 incluídos na lista da comissão e 142 assistentes com nota verbal do governo albanês que fez a aplicação de extradição para a Itália. Nenhum dos acusados foi extraditado muito menos processado.
Bibliografia
- Davide Conti, L'occupazione
italiana dei Balcani. Crimini di guerra e mito della «brava gente»
(1940-1943), Roma, Odradek, 2008. ISBN 978-88-869-7392-2
- Davide Rodogno, Il nuovo ordine mediterraneo. Le politiche di occupazione dell'Italia fascista in Europa (1940-1943), Torino, Bollati Boringhieri, 2003. ISBN 978-88-339-1432-1
















